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Entrevista - Mapa da pandemia local: Relatos indígenas sobre o Covid-19 na Amazônia

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Gilton Mendes é professor do Departamento de Antropologia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) em Manaus, coordenador do Núcleo de Estudos da Amazônia Indígena (NEAI) e pesquisador da Rede Saberes e Educação do Instituto Brasil Plural. Com o intuito de oferecer uma perspectiva indígena da pandemia, o NEAI vem realizando três importantes iniciativas. Estas iniciativas se baseiam na compilação de relatos indígenas fornecidos pelos estudantes da pós graduação em antropologia em diálogo com suas pesquisas, ampliando para relatos de experiências sobre a pandemia em diversas regiões da Amazônia e finalmente localizando estes num mapa da região para ir montando um retrato abrangente da situação e as estratégias indígenas frente à pandemia do Coronavírus.  

 

Valentina Nieto: Quais iniciativas vocês, como núcleo de pesquisa em antropologia e etnologia indígena, vem desenvolvendo frente a este fenômeno da pandemia do Coronavírus?

 

Gilton Mendes: Desde que foi decretada a Quarentena, começamos a pensar em como nos manifestar enquanto coletivo, sobretudo a partir dos estudantes indígenas do NEAI. Assim, partimos de duas importantes referências. A primeira, de reconhecer que fenômenos como este são historicamente conhecidos pelos povos indígenas. Desde a colonização, os ameríndios sofreram incontáveis surtos epidêmicos, ataques de vírus, bactérias e outros agentes patológicos que provocaram uma significativa depopulação no continente, levando muitos grupos à extinção, portanto, ao genocídio. Isso não é novidade, está registrado na história, e não devemos esquecer disso, nunca. A segunda referência é que, considerado a anterior, os povos indígenas desenvolveram estratégias, comportamentos e atitudes diante desses fenômenos de baixa, e que podem ser revisitados, reconhecidos e explicitados. Então, eles nos têm a ensinar sobre essas estratégias, e, aliado a isso, um ponto de vista diferente sobre a doença e a morte, já que esses grupos possuem epistemologias diferentes da biomédica em relação ao que significa corpo, bem-estar, proteção, saúde. Uma vez tendo tomado estas duas importantes referências, pensamos em o que poderíamos falar e fazer neste momento. O NEAI é constituído em sua quase totalidade por estudantes indígenas, na pós-graduação em antropologia. Então, tomamos a decisão de que esses alunos, do mestrado e doutorado, poderiam iniciar a partir de uma reflexão mínima sobre os fenômenos da pandemia, que, de alguma maneira pudesse estar articulada à suas pesquisas. A ideia não era que fizessem uma pesquisa específica sobre a pandemia ou o coronavírus, mas que pudessem produzir pequenos textos, resultados de uma breve reflexão sobre a pandemia a partir das pesquisas que estão em andamento, tomando algum capítulo da monografia, do projeto, algum aspecto que estivesse o mais próximo possível da pesquisa de cada um e que pudesse conectar com o fenômeno a que estamos vivendo. Enfim, a proposta é de se falar da pandemia a partir do ponto de vista epistemológico indígena, de uma perspectiva diferente da saúde biomédica, ancorado em outra noção, outra visão sobre as noções de doença, de corpo, doença etc. E também que pudesse, de alguma maneira, estar articulado com as estratégias que os grupos adotavam no passado e que podiam adotadas no presente. A iniciativa, ainda, buscaria fugir das reclamações da ausência das políticas do estado, da falta de políticas públicas, de desarticulação das instituições. Isso poderia até constar, mas não era o objetivo central. Assim, então, foram produzidos 8 (oito) curtos textos, de autoria de estudantes indignas de 6 (seis) diferentes grupos étnicos. Um dos textos se baseia em desenhos, que expressam as sensações e os sintomas de quem contraiu a doença, bem como os cuidados que foram adotados pelo seu autor, um artista antropólogo e neo-xamã desana. A este conjunto de textos intitulamos “Reflexões ameríndias em tempos de pandemia” .

Outra iniciativa são relatos orais dos estudantes indígenas do próprio NEAI, que contam, em áudio, como tem vivido e percebido a pandemia a partir de sua condição de saúde (vale lembrar que vários estudantes indígenas ficaram doentes, pela Covid-19 ou não, nestas últimas semanas em Manaus), da sua família, dos vizinhos, dos moradores da rua, da sua comunidade ou do bairro onde vive. Estes depoimentos, além de expressarem a situação de saúde, também falam das estratégias adotadas pelas pessoas, observadas em cada contexto. Esses relatos também estão fertilizados por uma perspectiva indígena, da descrição e das estratégias, e ainda das formas e condições de atendimento pelo estado. Com duração de 5 a 15 minutos, estes depoimentos estão reunidos em nosso site sob o título “Pandemia local: relatos indígenas sobre o COVID-19”.

O passo seguinte, em que estamos trabalhando agora, é expandir estas duas iniciativas para além dos estudantes indígenas do NEAI. De um lado, estamos convidando outras pessoas (estudantes e professores indígenas, mas também não indígenas, estudantes e pesquisadores) para produzirem textos, semelhantes aos que foram escritos, e, por outro, articulando lideranças, professores, conhecedores, velhos, mulheres e pessoas vítimas da Covid-19 para prestarem seus depoimentos, as iniciativas tomadas, análises e pontos de vista sobre a doença e a pandemia. De posse desse material, planejamos produzir um mapa localizando estas experiências e narrativas no espaço, tendo assim uma compreensão mais abrangente da situação da pandemia. Esperamos ter um mapa pontuando o nome das pessoas, o grupo étnico e de onde se refere o relato, além das iniciativas coletivas de enfrentamento da doença nas comunidades. Assim a gente pode ter uma imagem global da perspectiva e da condição indígena sobre a pandemia do coronavírus na Amazônia.

 

Valentina: Quais são algumas das estratégias dos indígenas para enfrentar as epidemias que aparecem nos relatos e que poderiam ser úteis para enfrentar a atual?

 

Gilton Medes: O que aparece é que eles adotam métodos que são de suas tradições, de suas práticas tradicionais de proteção. Aparecem basicamente duas cosias. O que se chama popularmente de “defumação”, isto é, o uso de certos elementos, a exemplo do breu e do tabaco, como agentes de proteção. Isto é feito pelos xamãs ou as pessoas que conhecem essa prática, que significa articular as forças cósmicas através desses veículos agentivos. A segunda, que quase sempre está acompanhada da defumação, é o emprego dos basese, conhecidos vulgarmente como benzimentos.  Estas são duas práticas de que temos notícia como sendo adotadas como estratégia pelos grupos, para proteção tanto das pessoas como dos ambientes, dos lugares, dos espaços de vida social. Também mencionam o uso de algumas plantas para prevenção e tratamento. Gabriel Maia, indígena Tukano, aluno do doutorado do PPGAS, que se está, neste momento, no Distrito de Iauareté, no Alto Rio Negro (foi para se tratar com os xamãs da região, e também realizar pesquisa de campo) nos encaminhou um áudio relatando que os kumuã (xamãs) do Distrito se encontraram, logo depois de uma reunião entre representantes das instituições do estado, da igreja, do exército, da Funai e da Foirn (Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro) para realizarem, juntos, uma super proteção contra a disseminação do coronavirus, via bahsese e defumação, de todo o distrito, que possui com uma população atual de aproximadamente 6 mil pessoas. Como sabemos, nas concepções indígenas, de modo geral, a pessoa é conectada a uma rede cósmica, onde a noção de indivíduo como um ser autônomo, físico e espiritualmente, e como cidadão, não faz muito sentido. Portanto, a proteção, os cuidados e o equilíbrio, nos contextos ameríndios, passam, inexoravelmente, pela teia de relações que enreda a pessoa. O Coronavirus, a exemplo das demais doenças comprometedoras, diz respeito ao tecido social e coletivo como um todo, exigindo proteção não apenas do indivíduo em si, mas de toda a trama do mundo, que abarca uma gigantesca comunidade de seres, humanos e não humanos.

 

 

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